segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Prefaciando prefaciadores.


Certos prefácios de livros são tão engraçados na medida exata em que são incompreensíveis. Por exemplo, há uma grande tendência em ser obscuro e enigmático ao se analisar o autor prefaciado. Se o autor for difícil de ler, o prefaciador deverá ser difícil ao quadrado! Quando não, para ser o mais exótico e antenado possível, cita-se um autor que ninguém conhece, que é complexo e pós-moderno (ou obscuro e maldito no pensamento hegemônico), pra iniciar a análise sobre o autor prefaciado. Eu, se um dia escrever um livro, quero que meu prefaciador comece assim:
“Como considera Songtsen Wangchuck, para o caso dos poetas da escola de Dniestre, a poesia moderna supera a condição do conteúdo, na medida em que a forma informa certo conformismo desinformante sobre a condição imanente do poeta (que ao poetizar induz ao erro exatamente por acertar!); deformando qualquer conteúdo. O poeta está não estando, estandardizando (ou escandalizando, quem sabe?) a imagética de seu próprio grito mudo! Ao colocar no papel (ou no ciberespaço, cósmico, êmico, ético, ou pôr o pó-ético da poesia?) um grito mudo, do não dito, nem escrito, nem muito menos pensado, faz o poeta um esforço numinoso do ser o não ser de si mesmo, revertendo e, quem sabe, reverberando a hipérbole (a hipotenusa, o catete do octógono semântico – que me perdoem Nietzsche, Foucault e o incompreendido Paulo Coelho [Paulo Coelho morreu?! – Viva Paulo Coelho!!]) da danação da arte! Assim é (em não sendo) o poeta nessa sua nova condição de canto da sereia desacompanhado de “pastilhas Valda” da condição do ser, ou cera do ouvido de Ulisses em frente do não lugar da viagem! Ora, quem não viaja é por que ficou, já o disse Joyce... Pois assim também é a poesia de T...”
Vai ficar tão legal!                             
Vai ficar tão legal que na segunda edição de meu suposto livro, vou publicar apenas o prefácio! Ou quem sabe, ainda, vou me dedicar a prefaciar prefaciadores!
E tenho dito!

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012


O espírito de natal da coca-cola é engraçado. No comercial que tá passado na TV aparece um Papai Noel que surge na casa de pessoas anônimas dizendo que há 35 ou mais estas pessoas mandaram cartas de natal. Daí o Papai Noel dá um presentinho pra pessoa e vai embora.
Bom aqui no Brasil, nas proximidades do Natal, milhares e milhares de crianças mandam cartas para o Correio. As cartas ficam lá, a espera de um bom coração para serem atendidas. Quem quiser ver é só ir na Agencia Central do Correio e perguntar por isso.
Essa propaganda da Coca-Cola é bem a cara do consumismo do Natal: oportunista, ocasional, aleatório, mercadológico, materialista. As nossas crianças (pobres e ricas) foram inculcadas a ganhar presentes materiais no Natal.
O problema é que isso, além de esvaziar o significado da data, leva a frustrações das crianças que não tem recursos, endividamentos de pobres, felicidade dos ricos e lucro para as fábricas de refrigerantes e similares.
Fora isso - tirando as 3 pessoas que apareceram no comercial da Coca-cola e receberam um presentinho da empresa multimilionária e mundial - a grande maioria das crianças que mandam cartas ainda vai ficar esperando anos e anos... Ou quem sabe daqui a 35 anos o Papai Noel garoto propaganda, vai aparecer lá num barraco qualquer de uma favela pra dar a um trabalhador cansado o seu presente pedido há décadas atrás!
Bom, mas pra quem acredita em Papai Noel, por que não poderia sonhar também com loterias?!

E feliz Natal!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012


Morrer de repente,
sem sentir, sem perceber!
É, ainda, a mais sofisticada forma de morrer!

A morte.
Um de meus temas preferidos, em vida.
Mas prometo, que quando morrer, não rabiscarei nem mais uma magrela linha de um poema sobre isso!

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Metamorfoses


Quando certa manhã a modesta barata acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamoforseada num monstruoso Humano. Que susto teve ela que até então não passava de um simplório inseto que durante a vida toda passou os dias a correr pelo chão atrás de migalhas do tempo e da natureza...
De imediato percebeu que seu imenso e estranho corpo não cabia mais no mundo em que vivia. Ao se mover, mesmo que com muito cuidado, esmagou muitos de seus parentes e amigos espalhados pelo chão. De súbito o ex-inseto experimentou a sensação do raciocínio. Começou de imediato a refletir sobre o ser e o não-ser, o devir, o finito e o infinito, a existência ou não de Deus e as possibilidades do mundo da matéria.
Seu primeiro raciocínio foi o da unidade das coisas, o Uno. Discorreu sobre o átomo, o vazio e o movimento. Seria o mundo formado pelas regras da matemática? O úmido ou os números seriam a base de tudo? Refletiu e Refletiu.
Neste intervalo de tempo levantou-se e sentiu asco pelas pequenas coisas. O mundo era seu. As miudezas não lhe interessavam mais. Numa pisada matou pai e mãe! Num rompante, na fração da fração do tempo, comeu seus próprios filhos como se obedecesse a fúria de um titã.
Olhou ao seu redor e estabeleceu seu limite. Urinou na terra e de lá cresceram estacas de madeiras com arames e, mais tarde, grandes muralhas de sete portas, donde sentou em um trono e continuou a refletir! Os que ficaram de fora, os que não tinham morada, se curvaram ao seu poder e foram escravizados!
E a justiça o que seria? Pensou. “É o governo justo e bom sobre os governados”, disse um!
Devorou-o de imediato! Não caberia a um escravo refletir sobre coisas humanas.
“A justiça senhor, é o governo do injusto sobre os homens!”, disse outro!
Refletiu! Explique melhor!
“A justiça é o governo do mais arguto, aquele que se faz parecer bom, mas que por habilidade e arte pratica todo tipo de ação que lhe leve a tomar o poder e a ter ganhos com isso! O incompetente, aquele que é desprovido da arte e do artifício da esperteza e maldade, será o infeliz! Será o governado! Justo é aquele que governa para os amigos e para si e prejudica os inimigos, pois assim se manterá no governo para sempre e desfrutará de todas as benesses daí advindas!”. Disse o subalterno.
Dito isso, o humano, certo de que estava certo, nomeou o discursante seu Polémarkhos, seu senhor da guerra! Constituiu um exército para o caso de necessidade do uso da força, quando a imagem do bom governo não fosse suficiente!
Mas o que seriam os ganhos do governo justo – aquele que governa para os amigos e não para os inimigos, aquele que pensa em si e em seu lucro? Seria a honra, a virtude, a retidão ou a bravura? A honra se evapora no tempo, se esvai com a fumaça, se modifica no contar das histórias - basta termos um bom contador de histórias e a honra se inventa! A virtude é a verdade de quem venceu, o certo de quem acertou, contra o errado de quem perdeu - a virtude é a força! A retidão é o caminho que o forte caminha, é o destino que ele escolher, é a sua linha reta, o caminho que esmaga os caminhos adversários! A bravura é a necessidade de dominar povos e servos – o bravo foi aquele que venceu!
Tudo isso pensou, o monstruoso Humano! E então, depois de muito meditar, escolheu um metal de ouro como prêmio para a ação dos justos! Estabeleceu e criou o precioso metal, o comércio e todas as atividades relacionadas a isso.
Mas a vida parecia vazia e sem forma para a maioria das pessoas. E a terra, mesmo formada por uma imensidão de servos mais ou menos passivos, parecia sem formato. E havia trevas sobre a face do abismo, e muitas vezes o monstruoso Humano se movia sozinho sobre a face das águas, que em algumas situações ameaçava tornar-se turbulenta. Por refletir mais, decidiu criar o templo, onde as coisas se religariam, ou as coisas se ligariam, a alguma outra coisa, que até então faltava e inquietava as mentes! O importante era ligar o que faltava. Ligar a curiosidade humana a algo que lhe saciasse a inquietação - pois a inquietação do governados não é boa para o governo Humano! E essa coisa era o templo!
“Haja o templo”, disse! E houve o templo. E com o templo multidões se formaram. E tantos e tantos outros templos foram erguidos. Onde era antes um imenso deserto, torres imensas foram erguidas, onde várias línguas se descruzavam e se cruzavam novamente. Aqueles que não tinham cercas em suas terras, e que não tinham justiça em sua morada, e que não tinham templo portentoso erguido em sua casa, ou mesmo os que tinham templos bárbaros, foram todos subjugados e escravizados.
Fez-se o Homem, a cerca, a justiça, a guerra, o precioso metal e o templo. O que faltava ao metamorfoseado, monstruoso Humano?
E então caminhando por seu reino imenso, circunspecto e com a testa franzida, pensou nas distâncias dos lugares, no demorar das horas, na vagareza das carroças guiadas a bois, na lentidão das sementes brotando, na desordem dos animais em cio e dos servos em ócio. Pensou na pequenez dos escravos pusilânimes, e no vagar dos dias, e na lentidão das estações, e na excessiva liberdade da natureza, e na rebeldia das mulas que empacavam, e na variabilidade do sol e da lua, que apesar de nascerem e morrerem todos os dias, atrasavam em frações de segundos a cada centena de anos. Em tudo isso ele pensou!
Preocupado e temeroso, o monstruoso Humano meditou por muito tempo, por séculos e séculos, até que chegou a seguinte ideia: construir a máquina!
E a primeira máquina que construiu, foi a máquina de Khronos, que comia o tempo com se engolisse filhos! A máquina que disciplinava mundos e impedia que o tempo fosse gasto de maneira errada e indisciplinada. A máquina que dizia quando o sol deveria nascer e quando a lua deveria clarear a noite! A máquina que dizia quando o galo deveria cantar e quando o servo deveria calar!
A segunda máquina que criou, foi a máquina de fazer coisas, que nada fez além de construir mais do mesmo daquilo que já existia, agilizando o tempo e aumentando a produção. Foi importante para aquele momento e para a história do monstruoso Humano.
A terceira máquina que criou, foi a máquina de fazer máquinas! Ela disciplinava os tempos e os gostos, dava aos humanos as necessidades mais dignas, fazia deles mais do que eles mesmos, os alienava de serem apenas seres humanos! Toda máquina era uma parte dos homens que trabalhavam nela, mas ao mesmo tempo os produtos que de lá saíam eram maiores e melhores que os seres humanos. Essa máquina não só saciou o desejo por coisas, como criou outros desejos de coisas que antes não existiam.
O fruto maior dessas primeiras máquinas, de todas elas juntas, foi o Produto ou Mercadoria, que também era conhecido como Coisa/coisa. Ela era filha da máquina, que por sua vez era filha do homem e da mulher, mas a Coisa/coisa era melhor que os homens e mulheres, pois era o desejo último do ser humano. Guerras se faziam pela mercadoria. Todos e todas as queriam!
E então faltava uma ligação entre o homem e a Coisa/coisa, faltava outro religare, alguma coisa que desse aos servos a sensação de que eles eram tão importantes quando as mercadorias que criavam. O monstruoso metamorfoseado criou, então, a sua última máquina: a máquina de fazer humanocoisas.
O humanocoisa era vendido em peças, algumas mais baratas outras mais caras. Ele aparecia nos jornais e TVs. Em outdoors e revistas. Todos e todas queriam ter e ser humanocoisas. Muitos compravam partes mecânicas e colocavam em seus corpos para se tornarem humanocoisas. Outros vendiam partes de seu corpo para outras pessoas se tornarem humanocoisas. Outros tantos vendiam pessoas inteiras, que eram recortadas, divididas, mutiladas, registradas, carimbadas e vendidas em pedacinhos para as necessidades das máquinas que faziam humanocoisas. Como em qualquer produção existia o mercado consumidor e o mercado fornecedor de matéria-prima, de peças metálicas e humanas; de parafusos e braços e mãos; de chapas de aço ou silicone e peles; cabelos, olhos, pernas, narizes e circuitos e gesso e bisturis; etc.
Foi a fase de maior prosperidade do governo do monstruoso Humano metamorfoseado, especialmente em favor de seus amigos, na prática da justiça Humana. As pragas e as doenças desapareceram. As baratas e outros insetos malditos não mais existiam, ou pelo menos tinham aparentemente desaparecido. As pessoas não mais morriam de águas em sangue; as moléstias causadas por epidemias de rãs desapareceram; homens e mulheres, crianças e velhos ficaram livres de infestações de piolhos; os cadáveres, as comidas, os animais e os miseráveis se tornaram imunes aos zumbidos e a presença de moscas; as sarnas não mais grudavam nas pessoas e nos animais de bem e de estirpe; ninguém mais morria de úlceras; nem mesmo as guerras usavam mais saivadas de fogo que caiam do céu, e as tempestades não mais jorravam granizo que antes perfuravam as cabeças e as casas das pessoas; os gafanhotos não mais amedrontavam os humanos, e muito menos amedrontavam os humanos amigos do monstruoso Humano; os primogênitos das boas famílias não mais morriam e as heranças ficavam com aqueles que praticavam a justiça aos seus amigos e a injustiça a seus inimigos e governados; por fim, as trevas pareciam estar cada vez mais distantes do ser Humano e das pessoas próximas.
Contudo, apesar de toda a aparência de felicidade e de bom governo, alguma coisa em essência estava errada.
Primeiro, o metamorfoseado percebeu contente que cada vez mais a justiça era bem feita, já que cada vez mais o justo governava para seus amigos e não para os inimigos! Mas isso, por sua vez, lhe exigia mais e mais da ação do templo e do exército, para controlar a multidão injustiçada! A multidão dos homens e mulheres injustiçados sempre era maior e sempre crescia mais.
Por fim, o metamorfoseado percebeu que as pessoas estavam cada vez mais felizes com a nova face do humanocoisa. As pessoas tinham novos braços, novas cabeças, novas pernas, novos olhos, e eram assim tão belas na medida exata de que não mais eram elas mesmas! Eram assim tão belas na medida exata de que menos se pareciam com o humano originário.... Nem mesmo o monstruoso Humano metamorfoseado se parecia com ele mesmo, pois que já havia novamente se metamorfoseado num monstruoso HumanoCoisa. E era cada vez mais belo e poderoso, em semelhança inversamente proporcional à sua aparência inicial. Tinha assim novos braços e novas pernas, nova face e novos órgãos. Parte metálicortante, parte em pelecortável: essa era sua nova imagem!
Porém, a contrapeso a tudo isso, existia muitos e muitos humanos/humanos infelizes. Esses eram exatamente a multidão injustiçada. Eram aqueles que não conseguiam ter a máquina que controlava o tempo, nem a máquina que fazia coisas, nem a máquina que fazia máquinas, nem a máquina que fazia humanocoisas. Muitos e muitos estavam frustrados, pois não conseguiam se tornar humanocoisas. Esses eram apenas engrenagem, mas nunca chegavam a ser mercadoria! Essa população infeliz era em número cada vez maior e eram cada vez mais distantes em aparência dos humanocoisa. Animalizavam-se, pois não conseguiam ter a forma do humanocoisa. Permaneciam tristes humano/humanos.
Em verdade existiam também aqueles dentro dessa multidão que conscientemente não queriam ser humanocoisas e preferiam ser o que sempre foram: humano/humanos. Contudo, esse grupo corria contra a corrente, e mesmo organizado não conseguia sequer desanimalizar a maioria humano/humano, que a essa altura já se encontrava embrutecida, frustrada e alienada, cada vez mais fora de si, sem si, sem ser! Por outro lado esses humano/humanos marginais e organizados não conseguiam se opor efetivamente aos poder dos humanocoisas.
Aos poucos se constituiu como verdade oficial que os humano/humanos eram feios, decrépitos, sujos, de dentes pretos e podres, de hálito sujo e fétido. Trajavam roupas sujas e farrapos e andavam no chão se rastejando. Os humano/humanos eram como insetos, eram como ratos, como lesmas, como cobras, como cães sarnentos, representavam tudo o que a Humanidade tinha deixado de ser desde o início da evolução, representavam tudo o que o novo humano, o humanocoisa, governado pelo monstruoso HumanoCoisa, não era mais. Em suma, os humano/humanos eram como havia sido a humanidade no início dos tempos: eram como baratas, que sempre ameaçavam contaminar tudo, varar de todos os lugares, surgir de qualquer brecha do chão, se espalhar no corpo das pessoas limpas, subir nas mesas e comer os banquetes nobres, mesmo sem serem convidadas. Ou ainda eram baratas que a qualquer hora poderiam ocupar o lugar dos humanocoisas, governados pelo metamorfoseado e monstruoso HumanoCoisa. E essa possibilidade fazia o metamorfoseado viver em noites mal dormidas, mesmo sabendo que ele ainda estava no poder...
E foi então que o HumanoCoisa não mais dormia, temendo o pior. E suava a noite, e delirava, e ficava em febre. Olhava ao espelho e não mais se reconhecia. E de seu lado, acima e abaixo, ele não reconhecia mais as pessoas, elas eram diferentes. Não eram mais pessoas, eram coisas! Cada coisa com sua forma, ou com sua deformação. Coisas grandes e pequenas, gordas e magras, baixas e altas, brancas e pretas, com pés e com patas. As pessoas já não falavam, pois de sua boa saia fumaça, fruto da queima de combustíveis e metais pesados. E de seus olhos saiam feixes de luz, como de carros ou jatos avisando que estavam passando em alta velocidade. E de suas narinas cada vez mais pareciam sair jatos de enxofre, ou outra coisa qualquer menos Humana e humana.
Anunciava-se o dia em que o humanocoisa seria totalmente filho da máquina, e essa, por sua vez, não teria pai nem mãe, seria simplesmente a razão das coisas. A máquina seria a razão e a origem de todas as coisas, e as coisas seriam o fim, o objetivo último, seriam o devir de todos e todas!
O Grande Coisa tinha as noites passadas em claro, milhares de dias e dias sem descansar, e mesmo assim, acordado, trazia quilíades de pesadelos que lhe atormentavam. E nem mais o tempo ele conseguia controlar. Perdia as horas! Não mais dominava o dia e nem a noite! Ele apenas girava desconfortavelmente na engrenagem das coisas. Até que em uma noite, não mais podendo dominar o sono e a natureza, ele adormeceu...
E quando certa manhã a coisa acordou de sonhos intranquilos, tenebrosos e reveladores, encontrou-se em sua cama metamoforseado num monstruoso inseto, uma barata imensa e sem fim! Uma barata metálica e que gemia um som de ferro e chamas. E estava tomado por todos os lados por muitas e muitas baratas. Baratas fétidas e sujas, baratas curiosas e barulhentas, baratas com milhares e milhares de bracinhos, que derrubavam as cercas de seu quintal e comiam a comida de sua mesa... As baratas haviam sobrevivido a tudo, mas já não eram baratas, e nem eram humanos, nem eram máquinas, e nem eram coisas...
Tudo havia se metamorfoseado!
Tudo agora era sem forma, tudo agora era deformado, tudo agora flutuava no abismo, e nada mais estava em seu devido lugar, nem a natureza e nem a história...

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Três xícaras alegres


Três xícaras alegres
rodopiam com o restinho de café
tomado à hora passada.
As xícaras são inanimadas só para quem não as veem dançarem alegremente.
Três xícaras de café lado a lado, ladeando-se,
numa fila indiana de xícaras de café do Brasil.
Elas dançam serelepes esperando a reação dos circunstantes,
esperançosas de serem tomadas por líquido quente.
As xícaras sabem que na verdade não as usamos,
são elas que se untam de café, usando a vontade da gente.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Agora o tema do facebook é a redução da maioridade penal



Pois vejamos:
Mandar filho de pobre, quase todos negros, quase todos índios e mestiços pra cadeia é fácil! Difícil é discutir e exigir investimento em creches para crianças, para que pais e mães trabalhador@s possam deixá-los em ambiente de segurança ao irem ao trabalho. Difícil é discutir e exigir educação de qualidade, com escolas que atendam em tempo integral crianças e adolescentes de bairros pobres. Ou exigir espaços para esporte, clubes, lazer, música, teatro, praças, parques, etc. que atendam crianças e jovens de bairros carentes, dando alternativa a quem tem apenas a “esquina”, a “quebrada” e a “malandragem” como modelo a ser seguido...
Ora, não existe uma cultura de paz sem uma estrutura social de paz. A cultura de paz não é como o “espírito santo” que baixa nas pessoas como por milagre. Não dá pra fazer uma CULTURA de paz se o meio ao redor das pessoas não tem uma INFRAESTRUTURA de paz. Isso é ausência de entendimento da totalidade social! Se a criança vive num meio social cercado de necessidades materiais e espirituais, no qual o seu modelo mais próximo de rebeldia é o garoto que fica na esquina armado ou vendendo drogas, é certo que boa parte dessas crianças talvez siga por esse caminho, ao chegar na adolescência. Ser rebelde na “Malhação” é muito bonitinho. Rebeldezinho de iphone, em boas escolas, passeando pelas praias de Copacabana é bonito de ver! Mas o adolescente real, de carne e osso, é o da maioria da população que não tem esse modelo a seguir na fase mais complicada de sua vida, um momento de indefinição e construção de identidade: a adolescência!
Qual é o espaço que a maioria dos adolescentes do Brasil têm?! Eles têm uma infraestrutura que possibilite viver em uma cultura de paz?
Mas pra que tudo isso, né? Escola e arte pra filho de pobre?? Pobre e filho de pobre, quase todos pretos e quase todos índios e mestiços, têm mesmo é que trabalhar, não é?! Têm que virar mão de obra. Um dos discursos que mais vemos nos telejornais é a ideia de que as pessoas têm que se qualificar para o mercado de trabalho. Pra que “arte” se temos a “técnica”?!! Se o cidadão não se adapta ao mercado, não entra na engrenagem, não serve pro sistema; e se virar rebelde de periferia, manda pro xelindró que resolve! Pra que gasto do dinheiro público com esse bando de “marginaizinhos protegido pela lei”, não é???!
Essa é a lógica da redução da idade penal. É o velho e tradicional método burguês de resolver o problema pelas consequências e não pelas causas. Reduzir a maioridade penal significa nivelar por “baixo”, ou seja, eliminar fisicamente (ou pelo menos excluir do convívio social) o adolescente pobre e excluído. Significa jogar a “sujeira” pra baixo do tapete. Bem ao modo da elite brasileira e daqueles que mesmo não sendo elite comungam com seus valores, mesmo sem saber! É mais fácil resolver eliminando o problema (pessoas no caso!) do que resolver mudando a condições que fizeram surgir o problema!
Que tal a gente sair da obviedade e refletir mais sobre esse tema?

Sugestões para debate:

Crianças pobres já têm maioridade penal

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Pequena história urbana – baseada em fatos reais?


O cidadão ia andando tranquila e distraidamente pela Avenida Nazaré, centro de Belém, e foi abordado por dois meliantes, aparentemente menores de idade.  Mesmo sem reagir levou uma coronhada e teve seus bens pessoais roubados com violência!
Infelizmente a polícia não estava próxima para prender os bandidos. E mesmo se tivesse, provavelmente não poderia fazer muito, pois os menores são protegidos pela lei em nosso país.
Descrição dos bandidos:
Meliante 1: cerca de 12 anos de idade, pele muito branca, loiro e de olhos claros, naturais, verdes ou azuis. Cerca de 1, 70 de altura e vestido com tênis Nike, calça Zoomp jeans e camisa de um colégio daquela redondeza.
Meliante 2: cerca de 14 ou 15 anos de idade, pele branca, cabelo bastante claro, loiro natural, olhos verdes. Cerca de 1, 60 de altura e trajando tênis Adidas, calça da Forum e camisa Colcci ou algo parecido! Carregava uma mochila de marca e uma iphone 4 ou 5.
Notícias sobre estes criminosos, avisem a polícia!
Fim!
Gostaria de saber de meus amig@s leitor@s o que acharam de meu microconto e se há verossimilhança nele, e ainda, caso não haja, por que?

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O falso assovio da Matinta Pereira.


Tô vendo muita gente falando que hoje é o dia da Mantinta Pereira e não halloween. Não tenho nada contra, inclusive concordo com isso!! Mas é bom lembrar que na hora de se posicionar politicamente em torno de projetos políticos populares (permeados de contradições, como tudo!), ou pelo menos na hora de se posicionar CONTRA projetos políticos conhecidamente antipopulares, nem todo mundo se manifesta! É aquela velha história: “povo bom” é o povo folclorizado, aquele que é bonitinho nas suas “tradições, lendas e mitos”, mas com o qual poucos querem se misturar no dia a dia, na vida cotidiana, na vida da cidade, nos ônibus, nas ruas, etc. Muitas Matintas Pereiras vão ficar 4 anos a ver falsos assovios em Belém do Pará. Muitos mestres da cultura popular vão continuar nos Guamares, Jurunas, Terras Firmes da vida sendo homenageados apenas no seu pós-morte, nos museus! Muitos meninos e meninas, Sacis Pererês e Curupiras, vão continuar ouvindo o assovio do tráfico de drogas, da ausência de escolas e da ausência do direito à brincadeira e ao lazer, na periferia de Belém. Matinta Pereira nos salve que lhe dou tabaco! Fioooote Mantiiiiinta Pereeeeeeira!


terça-feira, 30 de outubro de 2012



Ensimesmar-se,
encasulando-se!
Outroficar-se!


Felizes os que viveram em tempos extraordinários, pois a maior parte das pessoas passa a vida na mais perfeita e aprisionadora normalidade!

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Edmilson Rodrigues, por uma Belém nas Mãos do Povo


Edmilson Rodrigues, por uma Belém nas Mãos do Povo

Moradores do Tucunduba, da Vila da Barca, da Terra Firme, do Guamá, Jurunas, bairros e ruas que antes nunca tinham conhecido o que era saneamento básico ou asfalto... votam em Edmilson!

Quem depende e usa o segundo pronto socorro da cidade, feito no Guamá, depois de décadas e décadas de existência de um único pronto socorro na 14 de Março... vota no Edmilson!

Quem usou a primeira ciclovia da cidade, feita na Almirante Barroso, que garantia segurança para milhares de trabalhadores que dependiam de bicicletas para chegar ao trabalho ou em casa... vota no Edmilson!

Quem já usou ou teve familiares que usaram a Casa do Idoso (primeira especializada em cuidados médicos para a terceira idade)... vota no Edmilson!

Quem já usou, ou teve amigos ou familiares que usaram, as Casas Mentais (primeiras unidades municipais especializadas em tratamento de saúde mental)... vota no Edmilson!

Quem já usou o Saúde da Família, que atuava principalmente na periferia da cidade e levava médicos e remédios na casa das pessoas mais necessitadas... vota no Edmilson!

Quem decidiu onde parte do orçamento municipal seria utilizado, pelo voto de delegados eleitos pelas comunidades, nas assembleias populares do Orçamento Participativo e do Congresso da Cidade... vota no Edmilson!

Quem viu crianças do Aurá serem retiradas do lixão e das ruas e serem colocadas em projetos como o Escola Circo e Sementes do Amanhã (crianças que depois foram abandonadas pela atual administração e retornaram para o lixão e para a rua!!).... vota no Edmilson!

[tais projetos deram ao Edmilson por vários vezes prêmios internacionais, de organizações do peso da UNESCO! - se você acha que Belém como "Cidade Criança" é papo furado, as crianças atendidas por aqueles projetos não pensam assim!]

Quem viu praças que eram verdadeiras favelas e área de assaltos se tornarem áreas de lazer, como no caso da Praça do Operário, da Praça da Cremação, etc.... vota no Edmison.

Quem viu novos centros culturais e turísticos surgirem, como o Ver-O-Rio, o Memorial dos Povos, etc... Vota no Edmilson!

Quem conheceu a Nova Orla de Icoaraci reformada e com novo paisagismo, com detalhes e fotos que rememoravam a história de Belém e da Vila Sorriso, e que atendia tanto a população local como os turistas... Vota no Edmilson!

Quem conheceu o Ver-O-Peso, antes, e o viu como um verdadeiro caos, abandonado, cheio de ratos, sujo, etc. e viu ele se tornar um verdadeiro patrimônio histórico e cultural da cidade (hoje novamente abandonado pelo Duciomar!)... vota no Edmilson!

Quem presenciou a reforma de vários monumentos e prédios históricos da cidade como o Mercado de São Braz, o Ver-O-Peso, do Solar da Beira, reforma do Palacete Bolonha, reforma do Forno Crematório, reforma do Chalé Tavares Cardoso, e tantos outros... vota em Edmilson Rodrigues!

Quem presenciou a construção de espaços para a cultura paraense e belenense como da Aldeia Cabana de Cultura Cabana (Sambódrono da Pedreira), o Espaço Cultural Altino Pimenta (na Doca), o Espaço Cultural Mestre 70 e outros... vota em Edmilson Rodrigues!

Quem já foi atendido pelo Banco do Povo e teve financiamento barato para micro-empreendimentos que geraram emprego e renda para os trabalhadores... vota no Edmilson!

Quem pela primeira vez viu ônibus 24 horas na cidade, novas linhas de ônibus para bairro distantes (com a quebra de monopólios de poderosas empresas da cidade!), os primeiros ônibus adaptadas a pessoas com necessidades especiais a circular na cidade, a passagem mais barata do Brasil, e até poesia nos vidros dos coletivos urbanos... Vota em Edmilson!

Quem dançou e se divertiu na Seresta do Carmo – retomadas com Edmilson -; na Bienal Internacional de Música, que além de premiar artistas locais, trazia grandes nomes da música mundial, como o grupo colombiano Nuevas Estampas, o grupo guiano Star, o grupo caribenho Martinica, músicos do famoso clube cubano Buena Vista Social Club; além, de grandes nomes da música brasileira como Gilberto Gil, Chico César, Zeca Baleiro, etc.... Quem presenciou o renascimento das artes em Belém... vota em Edmilson!
Agora quem vota pensando no seu próprio umbigo ou vota por interesses escusos, contra a cidade, vai amarelar, vai votar nulo ou votar contra os interesses de Belém!!

A escolha é sua! O que você quer pra Belém!????

Pelos que mais necessitam, só há uma escolha para Belém, Edmilson Rodrigues 50!!


quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Deus e os bajuladores!


Teoricamente deus (ou Deus) deu cérebro e livre arbítrio para as pessoas, e disse “faz por ti que te ajudarei” (ou algo do tipo)! Sendo assim viver “prostrado”, bajulando, subserviente, obediente, sem questionar por si só (ou inspirado em Deus, que seja!) o que fala aquele tipo de pastor que só fica mais rico com o seu dízimo (com se a salvação fosse a riqueza na terra) ou aquele tipo de padre que dá o pão ao pobre, mas não questiona porque o pobre não tem pão, etc.... Tudo isso não é fé não... Creio que seja alienação, ou em termos religiosos (religare), muita falta de valor ao que seria, supostamente, a maior obra de deus (ou Deus): a mulher e o homem!

Quem acredita em Deus e não acredita no ser humano como ser ativo e crítico (e não passivo e bajulador!), esqueceu aquela parte que diz "feito à sua imagem e semelhança". Não esqueceu não?

Porém o pior de tudo é que há parte desses tipos de “pastores” (em sentido geral) que tem por profissão formar bajuladores e além de tudo vivem das bajulações (ou dízimos) dos outros. São aqueles que vivem da fé alheia, e não só da fé, mas da redução das pessoas a meros pedintes, mendigos que subservientemente pedem migalhas a fim de curar coisas do seu cotidiano infeliz!

Reduzir o homem e a mulher à condição de seres degradados e degradantes, e ainda por cima viver e enriquecer disso, é roubar a essência da suposta obra de deus (ou Deus), e, consequentemente, é ir contra o próprio criador (que supostamente fez as suas criaturas tal qual sua imagem e semelhança!).

Obs.: refiro-me aqui às vertentes hegemônicas das grandes religiões do ocidente de hoje: catolicismo e, em particular, as vertentes neo-pentecostais do cristianismo protestante. Deixo claro que se estou falando das vertentes hegemônicas, é obvio que existem exceções a este estado de coisas!


sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Considerações intempestivas sobre as vantagens da morte

Em verdade a morte é o grande dia da vida de qualquer pessoa, já que em geral todos os seus erros são perdoados e se ele for uma pessoa pública ou conhecida na sua redondeza vão aparecer depoimentos e depoimentos dizendo que ele foi um bom homem ou uma boa mulher.

De fato, até os inimigos nessas horas costumam chorar sobre o caixão do antigo adversário e proferem discursos voltairianos do tipo: “Não concordo com uma palavra do que dizias, mas defenderia até o último instante seu direito de dizê-la, caso você estivesse vivo. Porém, tendo em vista que você está morto, tanto faz como tanto fez!” (obviamente que essa última parte é falada em silêncio, para que os familiares não percebam!).

Esses depoimentos são apenas uma das vantagens de se estar morto. Outras ainda podem ser citadas. Pois vejamos:

O café! Velório que é bom tem que ter café! E muito café! E baralho também. Na verdade o café acompanha o baralho da mesma forma que as velas acompanham o morto. Sobretudo nos velórios populares que já participei, o baralho é quase tão importante quanto o defunto, e quanto o café. Diria até que muitos jogadores de baralho esperam ansiosamente o vizinho moribundo morrer para garantir pelo menos uma noite inteirinha dedicado ao seu jogo preferido (sem que a sociedade o condene como viciado e vagabundo). Deve-se considerar ainda que a economia de café nas casas da vizinhança do defunto é muito grande nessas 24 horas de velório, o que contribui sobremaneira para o bem estar social!

O piadista é outra coisa que não pode faltar. O piadista é o cara que mesmo estando sofrendo com a morte do defunto, tem o altruísmo de falar coisas engraçadas (às vezes até as peripécias do defunto em vida!). O piadista, poucos sabem, tem um grande papel em nossa sociedade e na vida dos mortos, ou, melhor dizendo, na hora da passagem dessa pra melhor. Ele é um elemento ambivalente, uma espécie de palhaço trágico, que garante que mesmo na hora do sofrimento os entes queridos do defunto consigam rir um pouco, lembrar dos bons momentos da vida com o defunto, e até, quem saber, chegar à conclusão de que na verdade o dito cujo já vai mesmo é muito tarde (isso apenas em casos mais extremos, obviamente!)!

Antigamente também era comum a presença de mulheres carpideiras, que iam pra chorar sobre o caixão do morto. Era muito romântico, mas parece que ficou como uma coisa do passado! Em alguns casos temos também a presença do próprio morto avisando aos entes queridos de que morreu. É o famoso fantasma da alma recém-desencarnada! (aproveito esse espaço e aviso desde já que não farei essa sacanagem com meus amigos e familiares. Ao morrer, caso eu não desapareça por completo, prometo não puxar o pé de ninguém à noite e nem me manifestar como alma penada. Qualquer aviso que tenha pra dar, deixo por escrito aqui neste blog para conhecimento público, antes de morrer).  

É importante considerar ainda que o cidadão em desacordo com a condição de vivo, vulgarmente conhecido como defunto, tem direitos inalienáveis que devem ser garantidos! Falta-nos ainda uma declaração universal dos direitos dos homens e mulheres mortos, mas de certo que entre os direitos e deveres do defunto então a existência de um caixão, um buraco na terra pra ser enterrado, direito a não ser comido (a não ser em casos de acidentes de avião em regiões isoladas e geladas do globo e se forem europeus invasores de terras indo-americanas!), direito a feder, mesmo depois de tomar o último banho, e a apodrecer!

Mas, caros leitores, a essa altura do campeonato vocês devem estar se perguntando por que estou falando de tudo isso? Ocorre que hoje de manhã acordei com a seguinte frase na cabeça: “a morte é em verdade o grande momento da vida de qualquer pessoa!”.

Isso porque além de todas essas sociabilidades que já falei acima, a morte é também a grande chance para, caso exista céu, irmos ao encontro do onipotente, oniciente e onipresente! E caso não exista céu vamos simplesmente deixar de existir.

Ora meus caros, o que a maior parte das pessoas não percebeu ainda é que deixar de existir não é propriamente uma coisa má. Na verdade não é também uma coisa boa. Na verdade não é nada! A não existência não tem cheiro nem sabor, não dói nem dá prazer, não é audível nem é silenciosa, nem quente nem fria, nem doce nem amarga, nem azeda nem salgada, nem chuva nem sol, nem inverno nem verão.

A não existência é simplesmente o que ela não é, ou seja, não é, é nada, em sendo um não ser, o não existir, nada faz ou desfaz, somente é o seu não ser, o que nem sequer se pode definir!

Neste sentido, morrer do ponto de vista da sociedade que cerca o indivíduo morto é um bom negócio, por todas as benesses que já expus (piadistas, elogios ao defunto; sem contar outros temas como o crescimento da economia de caixões e flores, a possibilidade do viúvo ou viúva trocarem de cônjuge, etc.).

E do ponto de vista do morto, ele terá as possibilidades de ir para o céu ou simplesmente deixar de existir.

Não coloquei a categoria inferno ou diabo de chifres e tridente nesse debate, pois acho que esse papo de inferno é contemporaneamente uma invenção de Edir Macedo e Cia. E não vou dar ibope pra esse tipo de gente que dá mais moral para o diabo do que pra Deus! Sem contar que se deus existir mesmo, e se for um cara maneiro, ele vai chegar à conclusão de que foi ele quem colocou a gente nessa enrascada toda, e agirá com justiça e perdoará todo mundo para garantir a paz celestial eterna no paraíso. Bom, mas isso caso deus exista! Eu, de minha parte, ainda sou adepto da tese de que depois que a gente morre viramos “nada” mesmo!

Então meus caros, tendo em vista o exposto, diria que morrer não é tão ruim assim. E defendo a tese de que morrer é o momento mais importante da vida de qualquer cidadão! O que dá a nós, seres vivos, a grande vantagem de um dia deixarmos de existir, em superioridade às pedras, por exemplo, que estão condenadas à eterna existência, em decorrência da ausência da morte!

Essa é, portanto, mais uma vantagem que nós temos, e não uma desvantagem, como pode parecer à primeira vista.

Então, se você é como eu, uma daquelas pessoas que vai morrer algum dia, lhe desejo que aproveite a sua morte da melhor forma possível, pois que eu saiba ela só acontece uma vez na vida, digo, na morte, e por isso mesmo tem que ser valorizada!

Sem mais, nos encontramos por aqui. A não ser que eu, ou um de vocês, morra!

Amém, pra quem é de amém; sarava pra quem é de sarava!

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Morreu Mestre Cupijó! Viva Cupijó!


Aviso: Esse texto é uma parte do terceiro capítulo de minha dissertação que tratou da música em Belém nos anos 1960-1970. Esse fragmento fala de Cupijó. Caso alguém se interesse, a dissertação completa esta aqui: http://www.ufpa.br/pphist/images/dissertacoes/2008/2008_tony_leao.pdf
As notas são originais, qualquer dúvida sobre as fontes citadas basta procura-las na bibliografia da dissertação.

*****


Um terceiro “mestre” importante neste período [anos 1970], não necessariamente do carimbó, mas do siriá, foi Joaquim Dias de Castro, ou simplesmente mestre Cupijó, como ficou conhecido. Segundo o que consta, o nome Cupijó surgiu em sua infância no município de Cametá, na região do baixo Tocantins. Como era um garoto doente até certa idade e não podia consumir comidas sólidas, vivia a reclamar para seus pais dizendo que iria fugir para o rio Cupijó, caso não lhe dessem a alimentação que queria. Resultado disso foi que a sua família acabou o apelidando pelo nome do rio que ele dizia que iria fugir. Surgia assim o nome pelo qual ele ficou conhecido desde o início de sua carreira [i].
Cupijó também vinha de uma família ligada à música. Ele era filho de Vicente Serão de Castro, figura importantíssima da música do município de Cametá. Seu pai nasceu em 1891 e foi remanescente do apogeu daquela cidade tocantina na época do intendente Heitor de Mendonça. Vicente Serrão de Castro foi regente da tradicional Banda de Música Euterpe Cametaense, e mestre-capela e regente do Coro Lira Angélica. Foi autor de vasta obra, em que constavam valsas, serenatas, quadrilhas, dobrados e música sacra [ii].
Graças a isso Cupijó teve contato muito cedo com a música. Seu primeiro instrumento foi o surdo, depois o prato, mas desde muito novo aprendeu segundo a leitura de partitura. Mais tarde aprendeu a tocar banjo, bateria, clarinete e violão. Tocou na Banda Euterpe Cametaense, a mesma que foi dirigida por seu pai. Sua estréia como músico se deu tocando bateria em um conjunto de propriedade de seu pai, o “Ases do Ritmo”, em um baile de fim de ano, em 1960 [iii].
Em 1961 passou a dirigir a Banda Euterpe, já que seu pai havia falecido, e também passou a atuar definitivamente no “Ases do Ritmo” nos aos 70. Além disso, dedicou-se a ensinar música gratuitamente, tendo uma escola de música em sua casa. Também dirigiu por certo período o coral da Matriz da Prelazia de Cametá.
Em 1973 lança o siriá em LP pela primeira vez, ao mesmo tempo em que o carimbó estourava no mercado regional. Em 1975 já chegava com o siriá a várias áreas do Brasil. Nesta época, seu terceiro disco, “Mestre Cupijó e seu ritmo”, foi gravado pela gravadora Continental.
Mesmo no período de maior divulgação do siriá, Cupijó dizia preferir o sossego de sua cidade interiorana. Não gostava muito de ir a Belém e a outras cidades maiores, só o fazia devido às necessidades inerentes à sua carreira. Essa badalação da cidade grande estava ligada também à badalação dos ritmos da moda. Neste sentido ele dizia que preferia o siriá “autêntico”, que ajudou a difundir. Falava ainda que talvez mais adiante começasse a ocorre com o siriá o mesmo que estava ocorrendo com o carimbó. Reclamava que o interesse dos mais “espertos” na busca do lucro estava se sobrepondo ao interesse da “autenticidade”. É importante observar que Cupijó se dizia um artista da música folclórica e não da música popular. Arrematava: “hoje o siriá é mais verdadeiro porque é menos sofisticado”[iv]. Cupijó se dizia um divulgador do folclore paraense, uma pessoa ligada por vivência a esse folclore: “Moro no interior, vivo, danço, conheço, bato tambor, toco, pino (...) sei a linguagem do homem do interior, converso com ele e vivo minha vida como um homem do interior”[v]. Daí que tinha forte aversão aos músicos da capital que tendiam a ir ao interior para conhecer as músicas daquela população com os seus gravadores na mão e depois gravavam como se fossem suas. “E não há nenhuma providência sobre esse comportamento. O Folclore deve ser visto como cultura do povo, anônimo”[vi] - concluía a este respeito.
É interessante observar que esse tipo de reclamação não foi exclusividade de Cupijó. A ida de músicos da cidade aos pequenos municípios e áreas rurais em busca da coleta do carimbó parecia ser um fato rotineiro neste momento. E isso acabava levando expectativas de ganhos financeiros e reconhecimento por parte dos tradicionais criadores, que após algum tempo não viam o resultado de seu trabalho aparecer. Com o passar dos anos, muitos compositores de carimbó começaram a se recusar a dar entrevistas ou a cantar suas músicas a pessoas que chegavam com gravadores ou câmeras de TV. A desconfiança se dava, pois para os criadores interioranos a presença destes “pesquisadores” poderia significar por um lado o registro acadêmico ou folclórico do carimbó, mas, na maior parte das vezes, significava a simples coleta para gerar gravações de discos onde as músicas apareceriam depois como de “domínio público”. Para o criador que acabava criando expectativas de algum ganho econômico ficava a decepção e desconfiança com qualquer um que viesse da cidade grande em busca de conhecer e registrar o carimbó [vii].
Cupijó ficou conhecido como o principal divulgador do siriá, música aparentemente originária do município de Cametá. Segundo a interpretação de alguns antigos moradores de Cametá entendidos no assunto, o siriá seria na verdade uma espécie de batuque aparentado com o carimbó. Para Mario Martins[viii], que era uma espécie de pesquisador da música cametaense, o nome siriá teria na sua origem o termo cereal, que com o passar do tempo ficou sendo conhecido pela população da cidade como a corruptela siriá. Seria uma criação tipicamente da cidade de Cametá. Para outros, a palavra síria tinha origem no local onde os escravos de Cametá pescavam o siri. Assim como teria ocorrido com palavras como “canaviá”, originária de canavial, e “arrozá”, de arrozal, teria surgido uma palavra, siriá, para referir-se ao local de pesca do siri, num processo de corrupção da palavra junto às comunidades pobres [ix].
Do ponto de vista musical, o siriá tinha proximidade com outras manifestações folclóricas como o marabaixo de Macapá[x] e mesmo o carimbó. Na opinião de Cupijó, a diferença maior entre carimbó e siriá estava relacionada à maneira como se dançavam cada ritmo, já que o siriá veio principalmente do roçado, do mutirão, sendo uma dança para grandes espaços, onde os movimentos de corpo acompanham a letra da música. Esse trabalho corporal de que falava Cupijó era conhecido em Cametá como “caianas”[xi]. Outras diferenças ainda segundo Cupijó seriam derivadas de uma maneira especial de tocar o curimbó - tambor - no siriá. Nele o tocador que está em cima do instrumento faz um movimento de calcanhar, ou mesmo de ponta de pé, sobre o couro, em sua parte inferior, abaixo de onde as suas mãos estão funcionando como baquetas, esfregando-o. Este movimento modifica a afinação do instrumento na hora de tocá-lo. Por fim, no mesmo tambor, que chega a ter até 2 metros de comprimentos, em que um tocador bate no couro com a mão em uma das extremidades, há uma segunda pessoa que batuca na madeira do tambor com pequenas baquetas de madeira rija, acompanhando o som que sai do couro[xii]. Para Cupijó, essas seriam as principais diferenças, mas como vimos acima isso ocorre também no carimbó, como por exemplo naquele feito por Verequete. O certo é que carimbó e siriá surgem e se tornam populares ao mesmo tempo, em um mesmo processo de valorização das músicas populares do interior.
Em junho de 1971, no jornal “Cametá”, José de Assunção elogiava o prefeito da cidade por colocar o Siriá nas festividades oficiais. Dizia que até aquele momento o siriá era uma música que existia apenas na parte profana e não oficial das festividades municipais, sobretudo nas zonas rurais. Não era tocado para a “sociedade” do município, apesar de sua longa existência que remontava ao período colonial, provavelmente de criação negra e indígena. Falava ainda que já era tocado com os “jazz”[xiii] nos “salões sociais”, mas que mantinha contudo suas características originais[xiv]. No mesmo período em que o carimbó começava a ganhar espaço em Belém, ocorria um processo parecido em Cametá com o siriá.
Em Cametá, o carimbó e o siriá no início de sua popularização eram tocados apenas no final das festas. Mas no momento máximo de sua difusão, o grupo de Cupijó chegava a tocar em 10 municípios do estado em um curto período de tempo. Apesar disso, os músicos do grupo nunca deixaram seus empregos, já que mesmo com tantos shows, diziam não ser possível viver de música por volta de 1973 [xv].
Em Belém, o siriá de Cupijó, assim como ocorreu com Pinduca, apareceu e conquistou espaço primeiramente nos clubes de subúrbio, como o Imperial e o Satélite, por exemplo. O Siriá aparece em Belém mais ou menos no mesmo período que o carimbó. No início dos anos 70 já se comentavam sobre esse novo gênero musical que vinha do interior do estado, mais particularmente do município de Cametá. Contudo, a postura de parte da intelectualidade e juventude em Belém será diferenciada em relação a Cupijó. Pinduca era visto por parte destes setores como uma espécie de deturpador do carimbó, por ter colocado em seu conjunto instrumentos modernos, como guitarra e baixo elétrico, e bateria. Já a visão sobre Cupijó foi outra, bastante boa desde o início, pelo menos é o que podemos perceber em um artigo escrito por Paes Loureiro no jornal Folha do Norte em 1973 [xvi].
Neste texto, Paes Loureiro reconhece em primeiro lugar a longevidade do siriá que lutou para sobreviver “durante longo anonimato”. Reconhece também o município de Cametá como uma cidade culturalmente muito importante na região, por ser “o manso território onde lutam contra o tempo e a indiferença, as últimas verdadeiras manifestações de nossa tradição popular”[xvii]. Mas o que fica fortemente visível em seu texto é a importância singular atribuída ao “Mestre Cupijó”, que aparece quase como um herói defensor da cultura e do povo da região. Aliás, de fato torna-se um herói no discurso Paes Loureiro já que é comparado a Pedro Teixeira, que realizou a fantástica aventura de navegar o Rio Amazonas em sua totalidade entre os anos de 1637 e 1638 [xviii], e também é relacionado à cabanagem que teve em Cametá um ponto de apoio muito importante [xix]. Assim comenta Paes Loureiro:

Mestre Cupijó reeditou Pedro Teixeira, aquele que conheceu o Rio das Amazonas, trazendo até nós, para nosso conhecimento, a alma de sua cidade, que no seu sopro confere vida ao barro primitivo de uma alegria, a que a luta brava da civilização começa a nos desacostumar.
Nele (...), entre barrancos de bemóis, corre o lento rio Tocantins, piscoso de lendas e mistérios; (...) nele brincam as crianças humildes de Cametá, fazendo cirandas em sustenidos e bequadros; nele se ergue a Cabanagem em punhos, deflagrando tambores e alegorias; nele percorre, na veia das melodias, o sangue legítimo da verdade popular (...).
Mestre Cupijó toca pelo amor de tocar. Ainda não aprendeu a vender a sua arte, porque seria mercadejar a sua alma [xx].

E a recíproca parecia ser verdadeira. Em 1976, referindo-se ao contexto musical de Belém, e à questão da difusão da música “folclórica” e popular paraense, Cupijó tece observações elogiosas à nova geração de músicos que surgia, assim como a artistas já de velha história. O relato a seguir é interessante para percebermos que artistas como Cupijó, do interior, aparentemente com pouco contato com o mundo das classes médias urbanas e seu meio cultural, reconheciam o papel desse grupo na construção de uma música popular com feições regionais. O reconhecia como grupo, sobretudo, onde encontrávamos desde o veterano Waldemar Henrique até os novatos. Ele dizia:


“Penso que nosso estado é muito feliz. Não apenas no campo folclórico, ao qual eu pertenço, como, também, na música popular. Chego mesmo a pensar que no Pará se pinta uma nova interprete nacional, com Fafá de Belém. E os compositores como Waldemar Henrique, Paulo André Barata e Paes loureiro, Vilar, Proença, foram uma constelação que muito me anima lá pelo meu interior [xxi].


[i] LIMA, Elza. Cupijó: mestre do cancioneiro popular. O Liberal, Belém, 01 ago. 1993. Caderno 3, p. 10.
[ii] SALLES, 1985, op. cit.
[iii] Mestre Cupijó lança CD para comemorar carreira. O Liberal, Belém, 28 ago. 1999. Caderno Cartaz, p. 6.
[iv] COUTO, Jesus. Hoje, siriá ao vivo, em Belém. A Província do Pará, Belém, 10 abr. 1976. 2º Cad., Transa Musical, p. 6.
[v] Ibidem.
[vi] Idem. No mesmo sentido, outra entrevista de Cupijó in: Mestre Cupijó, o rei do siriá, está elaborando o seu quinto LP. A Província do Pará, Belém, 15 jul. 1977. 1º Cad., p. 7.
[vii] Um outro exemplo de indignação sobre esse tipo de atitude pode ser visto no depoimento de D. Zazá, amiga de Mestre Lucindo, um popular criador de carimbó do município de Marapanim que se tornou conhecido em Belém já nos anos 80. D. Zazá chega inclusive a dizer que a partir de certo momento se recusaria a dar entrevistas ou a cantar o carimbó para qualquer pessoa que fosse até ela a não ser que fosse paga por isso. Dizia ainda que durantes anos seguidos eles teriam apenas recebido promessas de gravação e de recebimento de direitos autorais, coisa que nunca acontecia. Cf. Entrevista com D. Pequenina (esposa de mestre Lucindo) e D. Zazá. Museu da Imagem e do Som do Pará. (FV 91/12). Estas entrevistas parecem ter sido feitas nos anos 90, após a morte de Lucindo.
[viii] SILVA, Coely. Entrevista à Mario Martins: As verdades históricas do carimbó, que é “curembó”. O Liberal, Belém, 23 jul. 1974. p. 8.
[ix] MODESTO, Márcia. A influência negra na dança e no canto paraense. Cultural, Belém, set. 1988. p. 8.
[x] Batuque e dança de mestiços e negros do estado do Amapá. Sua área de maior incidência é a cidade de Mazagão Velho e o bairro do Laguinho, onde ficava o antigo quilombo do Curiaú. Cf. SALLES, 2007, op. cit. p. 198.
[xi] MARIA, Luíza. Cupijó o mestre do siriá, op. cit.
[xii] COUTO, Jesus. Siriá é lançado para todo o Brasil através da Continental. A Província do Pará, Belém, 20 abr. 1975. 2º Cad., Transa musical, p. 5.
[xiii] Em muitas cidades do interior, as bandas de baile dos anos 40, 50 e 60 eram conhecidas por jazz ou “jazzes”. Eram na verdade fruto da popularidade de bandas instrumentais, com presença de muitos instrumentos de sopro, que foi comum em todo o Brasil a partir do dos anos 30. Cf. SALLES, 1985, op. cit.
[xiv] ASSUNÇÃO, José. Siriá. Cametá, Cametá, 23 jun. 1971. Opinião, p. 5.
[xv] MARIA, Luíza. Cupijó o mestre do siriá. O Liberal, Belém, 25 nov. 1973. 3º Caderno, p. 9.
[xvi] LOUREIRO, João de Jesus Paes. Mestre Cupijó. Folha do Norte, Belém, 12 abr. 1973. 2º Caderno, p. 1.
[xvii] Ibidem, p.1.
[xviii] A famosa expedição de Pedro Teixeira fez parte do processo de conquista e ocupação da Amazônia pela coroa portuguesa, num momento em que nações estrangeiras ameaçavam ocupar definitivamente o território português nestas terras, particularmente os franceses que já haviam fundado a cidade de São Luis do Maranhão. No processo de expulsão destes povos e de conquista - nada amistosa como se sabe - dos indígenas ocorreu esta expedição. Entre 1637 e 1638 setenta soldados e mil índios liderados por Pedro Teixeira, partiram de Cametá, navegando pelo rio Amazonas até seu alto curso, penetrando nos rios Napo e Coca. Desta parte em diante os expedicionários foram por terra e alcançaram à cidade de Quito, que na época era a capital do Vice-Reino do Peru. Cf. NETO, José Maia Bezerra. A conquista portuguesa da Amazônia. In: FILHO, Armando Alves; JÚNIOR, José Alves; e NETO, José Maia Bezerra. Pontos de história da Amazônia, v. I. Belém: Paka-Tatu, 2001.
[xix] Cabanagem: movimento insurrecional ocorrido no Pará entre 1935 e 1940, que teve forte atuação das camadas populares contra as elites locais. É considerado como um dos maiores movimentos revolucionários populares do período imperial brasileiro. Cf. NETO, José Maia Bezerra. Cabanagem a revolução do Pará. In: FILHO, JÚNIOR e NETO, 2001, op. cit.
[xx] LOUREIRO, João de Jesus Paes. Mestre Cupijó, op. cit.
[xxi] COUTO, Jesus. Hoje, siriá ao vivo, em Belém. 1976, op. cit, p. 6.