quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Lições de história oral para historiadores boêmios!


Uma vez estava entrevistando um boêmio do Jurunas com 70 anos de idade num bar no próprio bairro, junto com outro amigo historiador. A entrevista foi longa, mas de 3 horas de histórias sobre puteiros, gafieiras, boates, sedes suburbanas, escolas de samba, músicas, músicos, personalidades do mundo da política, da vida noturna, etc. Como a entrevista era no bar, regada a cerveja, uma exigência do entrevistado (e sacrifício enorme para os pesquisadores em questão!), lá por volta de 3 horas de conversa todos já estavam um pouco pra lá de Bagdá. Resultado que no final o entrevistado e os entrevistadores ficaram minutos e minutos seguidos fazendo agradecimentos mútuos pela entrevista e sobre o valor daquela memória.
Depois de dizer que a gravação ia ser encerrada - dizermos por várias vezes - falei assim: “Bom, vamos desligar agora [no que disse o outro pesquisador: a conversa continua informalmente ainda!]”. E continuei: “agora vamos para parte que os historiadores do futuro não ficarão sabendo!”.
O bate papo continuou ainda um bom tempo, ou várias outras cervejas a mais. Creio que no final de tudo isso nem os historiadores do futuro teriam possibilidade de saber o que conversamos, e nem nós mesmos, pois a ressaca e a dor de cabeça do outro dia não permitiu que ficasse nada na memória, além do que o gravador registrou! O que significa que tanto a memória, como a história, podem ser fluidas, como a cerveja. E dependendo do caso, podem também dar muita dor de cabeça!
E tenho dito, mas só parcialmente registrado!

Maria de Belém


Era uma vez Maria, cabocla faceira, linda, com seus cabelos indígenas e com a pele cor de jambo. Maria com sua saia rodada gostava de caminhar pelos túneis de mangueiras da cidade que morava. Caminhava e dançava carimbó rodopiando enquanto doces periquitos gorjeavam sobre sua cabeça, encantados com sua saia de chita cheia de flores coloridas que balançava sobre as calçadas de pedraria secular. Até que um belo dia enquanto Maria caminhava e rodopiava cantando “vô ensinar sinhá Pureza, a dançar o meeeeeeeu!!!”... foi interrompida bruscamente por uma grande manga que caiu em sua cabeça! Rodopiando ainda, mas agora tonta, tropeçou numa valeta que foi deixada aberta pelo prefeito anterior e caiu no bueiro cheio de água suja da última chuva, entupida por moradores que jogavam lixo na rua. Maria levantou e foi pra casa praguejando os transeuntes e os circunstantes que riam dela.
Moral da história: manga dói na cabeça, já podem continuar jogando lixo na rua e não vai acontecer porra nenhuma com o prefeito anterior!
Parabéns Belém!! :)

sábado, 5 de janeiro de 2013

UFPa e a falta de peixe na Terra Firme


Fui à feira da Terra Firme comprar peixe e só tinha um vendedor na ativa. Me disse que a filha de um peixeiro passou no vestibular da UFPA e estavam todos comemorando. Vai faltar peixe hoje no bairro – por um bom motivo, é claro!. 
Aqui nas ruas próximas, tiveram fogos o dia todo, o que significa que muitos filhos de moradores da TF entraram na maior universidade pública do Norte do Brasil. 
É bom ver os moradores da periferia, grande parte deles de famílias humildes, chegando à universidade. Pena que muitos desses disputam em condições desiguais vagas com filhos da elite, que tiveram uma preparação cara nos cursinhos espalhados pela cidade (a outra face da mercantilização da educação). Isso me lembrou que as cotas garantem a entrada de muitos desses moradores da Terra Firme e de outros bairros pobres de Belém. As cotas são muito necessárias, apesar de serem ainda uma política paliativa e precária.
O curioso de tudo isso é que muitos filhos da elite também vão ocupar vagas da universidade pública que mais produz conhecimento na região amazônica. Diferente dos primeiros - os referidos moradores da TF e outras periferias - muitos desses são herdeiros da mesma elite que defende o “Estado Mínimo” (a desobrigação do Estado com a educação pública e outros setores da vida social), e são contra a política de cotas e outras políticas sociais. Afinal, “pobre é pobre, por que quer, não é!”.
Ora, e por que tanta vontade de entrar na universidade pública, então, se a intervenção do estado é nociva?!
Eis a questão: escola púbica para o povo.
Parabéns aos ingressos na UFPA, principalmente aos filhos da classe trabalhadora das periferias de Belém! Saravá!