segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Sobre cidades, maravilhosas ou não.

Essa é a primeira de não sei quantas crônicas que pretendo escrever sobre Belém, carnaval, Bloco da Canalha, boi bumbá, etc, etc.. Não há propriamente uma ordem, nem datas... as crônicas vão surgindo quando surgirem, e devem ir até o próximo aniversário da cidade em 2016. Segue:

Nasci em Belém do Pará, mas vivi muitos anos de minha infância e adolescência na pequena cidade de Igarapé-Miri. Desde pequeno sabia onde havia nascido e as histórias sobre aquele lugar acabaram criando uma aura em torno da cidade e a vontade de um dia voltar.
Pequeno, vivendo em uma cidade do interior da Amazônia, onde o meio de informação mais difundido era a televisão, não sabia exatamente o que era Belém. Confundia coisas, misturava mensagens e ícones disseminados no imaginário sobre as cidades do mundo. Não foi à toa que a primeira vez que fui à capital do Pará, ainda pré-adolescente, acreditava que estava indo visitar, finalmente!, a tão falada “cidade maravilhosa”. Talvez eu confundisse o termo “cidade maravilhosa”, normalmente atribuído ao Rio de Janeiro, com outros termos tradicionalmente associados à Belém, como “cidade das mangueiras”, “cidade morena”, “capital da Amazônia”, etc.
Seja como for, naquela primeira viagem, Belém me remetia a uma “cidade maravilhosa”. A imagem efetiva da cidade não poderia ser diferente daquela expectativa. Encostado no parapeito da lateral de um barco que singrava a baia do Guajará, rumo à metrópole, eu via na imensidão das águas pequenos prédios que aos poucos iam se avolumando, em meio ao céu claro e transparente. Tudo coberto de uma profunda claridade. Lembro como se fosse hoje! Uma claridade daquelas que só são entediadas por quem um dia navegou nas baias que cercam Belém e nos grandes rios da Amazônia. Aquela paisagem, mistura do céu com a imensidão de águas, não sei o motivo, mas tem uma luminosidade muito sua, algo quase indescritível.
Eu via Belém da “janela” de um barco e a mim me parecia, como continua a me parecer quando faço essas viagens, uma “cidade maravilhosa”, cercada de rios e mais rios. Essa foi uma das primeiras imagens que tenho de Belém. A ela, outras se somariam.
Alguns anos depois, quando já morava na capital, no período em que fazia o curso universitário na UFPA, percebi uma outra imagem da cidade que até hoje não esqueço, e que marcou muito minha maneira de entender esse mundo. É uma imagem dupla, na verdade, composta por lama e por asfalto. Asfalto em primeiro lugar.
Logo que cheguei ficava muito tempo perdido em distração olhando como o asfalto das avenidas era bem feito. Um asfalto lisinho, negro, robusto, no qual a água da chuva jorrava e deslizava junto à sarjeta. Lembrava do chão do quintal e das ruas de terra ou de asfalto raso  de Igarapé-Miri. Pouco se sabe, mas há uma ciência que explica as formas como a água adere ou escorre sobre um chão de terra ou um chão de asfalto. Até hoje não sei de que imagem gosto mais, se da água escorrendo no chão de terra dos quintais infantis ou da água que deslizava pelo asfalto quente de Belém nos dias de chuvas torrenciais.
A segunda metade da imagem está obrigatoriamente associada ao asfalto, mas é o seu oposto, é a sua ausência. É a cidade-lama, a cidade alagamento, a cidade margeada, marginal! Ao mesmo tempo em que descobria o asfalto, descobria uma rota que me fazia visualizar Belém pelas suas margens. Todo os dias eu ia para a universidade e meu ônibus, Cremação alguma coisa, circulava praticamente por toda a “Estada Nova”, Av. Barnardo Saião.
Como morava no bairro do Jurunas, nessa época, depois de passar um curto período de menos de um ano no Marco, e ia para a UFPA, que fica no Guamá, meu ônibus fazia uma reta. Para quem não conhece Belém vai aqui uma rápida explicação. A Av. Bernardo Saião é uma estreita rua que segue a margem da cidade na parte sul. Ela acompanha a margem do rio Guamá, porém na maior parte do caminho esse rio não é visto, já que existem milhares de casas, além de empresas, portos, feiras, que ocupam a margem do rio. A rua atravessa a região mais populosa de Belém, bairros de grande riqueza cultural e social, mas também muito pobres, como o Jurunas, a Condor e o Guamá. É literalmente uma rua marginal, em todos os sentidos.
Indo e vindo da universidade, fazia esse caminho olhando uma paisagem que se revelava mais e mais a cada dia. Os detalhes se ampliavam: casinhas de madeira penduradas sobre o canal que segue a avenida; campos de futebol de várzea; bares e bares e mais bares; feiras e portos; crianças correndo atrás de papagaios e pipas, passando pela frente dos carros, serelepes, sem medo; carros e caminhões descarregando nas feiras do Jurunas, no Porto da Palha, indo e vindo apressados; propagandas sonoras automotivas e faixas coloridas penduradas nos postes de iluminação e nos fios elétricos, anunciando as festa de aparelhagem e os bares mais populares daqueles bairros; caixas de som em alto volume na frente de casas, em bares, lojinhas, em biroscas que vendiam peixe frito e açaí; palafitas e mais palafitas penduradas sobre os canais; vielas que desapareciam serpentiando, a partir da avenida, e formavam caminhos labirínticos bairro  adentro; carros de mão puxados por vendedores de frutas, vendedores de coxinha e suco, carroças puxadas por animais levando madeira; caboclos, negros e afro-ameríndios desembarcado nos portos e chegando na cidade depois de atravessar a baia do Marajó, ou vindos de cidades pequenas próximas a Belém, como Igarapé-Miri, Cametá, Barcarena, Abaetetuba e tantas outras; camelôs e todos os tipos de vendedores de todos os tipos de coisas; e outras infinidades de imagens, cores, sons, cheiros e vida.
Porém o que mais me chamava atenção nessas viagens diárias era ver a cidade, mais uma vez, da margem para o centro. Em determinado espaço da avenida, o ônibus cruzava uma parte grande e descampada, ainda no Jurunas. Lá, sem as casinhas de madeira que ficavam quase tocando nos ônibus, de tão próximas que eram da rua, era possível um olhar mais recuado. A vista partia da avenida, da janela de um coletivo, e rumava para o centro de Belém. A cidade se revelava em camadas. Apesar de estar na periferia eu podia ver quase toda a cidade de lá, pois o horizonte, por algumas minutos, se abria ao observador. Via muitas Beléns.
Via aquela cidade já narrada acima, e outra um pouco mais distante: a cidade de prédios altos. No horizonte, enquanto o ônibus corria, podia confrontar a parte enlameada, alagável e pobre da margem da Barnardo Saião, que se movia rápido, com a parte distante, formada de prédios bonitos que quase não se moviam com o correr do ônibus. Centro e periferia não se comunicavam, pareciam próximos, mas estavam distantes milhares e milhares de quilômetros e milhares e milhares anos. Eram na verdade dois mundos de uma mesma cidade. Uma cidade, que vista em perspectiva, já não parecia tão maravilhosa assim.
A maior parte de minha vida em Belém passei nesta margem. Morei um curto período no Jurunas, depois passei a morar na Terra Firme. Como frequentava a maior universidade de Belém, que ficava na beira do rio Guamá, fiz muitas vezes, também, o percurso à pé, da Terra Firme à UFPA. Via aí a continuação do que seria a Bernardo Saião, já com o nome de Avenida Perimetral. A paisagem era a mesma.

Eu não sabia ainda, mas passaria muitos anos olhando a cidade das margens e tentando entendê-la melhor. Tornei-me um flâneur dessa periferia. Mesmo quando circulava pelo centro de Belém, meu olhar era enraizado nas margens e a partir dela é que passei a ver todo o resto; fossem as maravilhas, fossem as misérias urbanas. 

quarta-feira, 21 de maio de 2014

O reaça diz: não há racismo, somostod@smacacos. 
Mas, sabe-se que entre os “iguais” (humanos e bichos) “alguns são mais iguais que os outros”.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Campanha #somostodoshomensplaca:

Essa foto é a prova definitiva de que no Brasil além de não existir esse negócio de racismo (já que ‪#‎somostodossereshumanos), o pouco que existia foi eliminado de uma vez por todas por campanhas criativas e bondosas como aquela do ‪#‎somostodosmacacos. Campanhas que inclusive geraram empregos e dignidade para os nossos escravos, ops, quero dizer, para os nossos negros...
Aguardem, logo logo empresários e jogadores brasileiros ligados ao terceiro setor lançarão a campanha: "Somos todos homens-placas".
Não vejo a hora de adquirir a minha camiseta.
(SQN)






#AFlorestaVaiGritar!

Texto a seguir foi extraído do site da campanha, acesse e contribua AQUI



No dia 24 de maio de 2011, dois pistoleiros mataram os ambientalistas Zé Cláudio e Maria. Eles foram julgados, mas os mandantes continuam soltos. Essa vaquinha é para ajudar a família a fazer uma grande mobilização dentro do assentamento onde eles viviam e lutar por justiça!
Zé Cláudio e Maria dedicaram suas vidas para proteger a Amazônia. Eles amavam a floresta e queriam garantir esse legado para as gerações futuras.
Zé Cláudio uma vez disse: "Se uma árvore morre, eu planto outra. Porque no dia em que eu me for, vai ficar minha continuidade. E virão outras pessoas que querem a mesma coisa (Floresta) que tenho hoje."
Esses heróis denunciavam aqueles que queriam destruir a floresta. Zé Claudio e Maria eram a voz da Floresta.
Aqueles que mataram Zé Cláudio e Maria tentaram calar essa Voz.
Mas o legado deles ficou e a #AFlorestaVaiGritar!
Seu apoio é fundamental. Junte-se aqueles que lutam pela floresta e que no dia 24 de maio de 2014 gritarão junto da Majestade, a grande castanheira que Zé Cláudio e maria amavam: Viva a Floresta!

Quem somos:
Familiares de Zé Cláudio e Maria: Claudelice Santos, irmã de Zé Cláudio; Clara Santos, sobrinha de Zé Cláudio e Laisa Sampaio, irmã de Maria. Junto com a Comissão Pastoral da Terra.

Como faremos:
A família, a Comissão Pastoral da Terra e organizações locais estão organizando um grande mutirão para reconstruir a casa e o lote para receber os visitantes. Queremos fazer um grande ato para reunir forças, apoio das outras famílias extrativistas, e transformar o local de vida deles em um símbolo.
Os custos desse projeto são essenciais para permitir essa mobilização. Vamos receber pessoas que vivem com poucos recursos e dificuldades para o transporte e alimentação, mas gente corajosa e dedicada a defender a floresta.
O nome dos apoiadores será escrito em um muro na entrada da casa e agradecido nas redes sociais.
#VivaZéCláudioeMaria!

Minha twittada de hoje.

O que seria de nós sem o Diabo? Como viveríamos tendo que aceitar que boa parte dos erros são de nossa única e exclusiva responsabilidade?!

(No twitter)

Ciclovia "Casa da Mãe Joana".

Toda rua tem nome, não é mesmo? Pensando nisso me surgiu a ideia de batizar também uma ciclovia. A da Av. Mundurucus, a única inaugurada pela prefeitura de Belém nos últimos anos.
Ocorre que, percorrendo seu caminho, é facilmente observado que a ciclovia é de todo mundo. É uma ciclovia republicana, por assim dizer!
É do pedestre que para na faixa, dentro da ciclovia, esperando o sinal abrir; é do motoqueiro que pra fugir do engarrafamento a utiliza como atalho; é do outro motoqueiro que parou pra deixar uma encomenda (“rapidinho!”, segundo ele); é do carroceiro que deu uma paradinha pra juntar um entulho jogado nas ruas; é do motorista de táxi que parou “só um minutinho” pra pegar um cliente; é do moço que entrega gás naqueles carrinhos de pequeno porte; às vezes, é até da viatura da PM que estaciona pra fazer a fiscalização e a segurança pública da cidade; é das latas de lixo, aquelas grandes, deixadas na frente dos condomínios perto de São Brás; é do carro do lixo que para na ciclo faixa ao fazer a coleta; é dos ônibus que “sem querer” colocam um lado de suas rodas pra dentro da ciclovia; é dos carros particulares que a utilizam pra estacionar na frente das casas ou na frente dos lanches e bares da Mundurucus; etc...
Em resumo: a ciclovia da Mundurucus é de todo mundo. Se a gente parar pra pensar, pode ser até que ela também seja dos ciclistas, tanto que esses não atrapalhem todo o resto de cidadãos citados aqui em cima. Os muitos e muitos ciclistas que usam a via como corredor de transporte alternativo para o trabalho, evitando assim o pagamento de muitas passagens de ônibus todos os dias. E por falar em passagens de ônibus, informo a tod@s que ela já está mais cara nesta segunda-feira de Santa Maria de Belém do Grão-Pará.
Pensando em tudo isso é que tive a ideia de batizar a ciclovia da Mundurucus. Pensei em vários nomes, inclusive em homenagear familiares da atual administração pública. Mas, tendo em vista as características citadas, poderíamos lhe chamar de ciclovia “Casa da Mãe Joana”, pois, como muitas coisas em Belém na atualidade, a ciclovia não é de ninguém e é de todo mundo ao mesmo tempo.
Fica a sugestão para a prefeitura. Tenho certeza que será mais um bela homenagem à cidade de Belém, nas vésperas de seu aniversário de 400 anos.
Esteticamente “vanguardista”, plasticamente cult-retrô, comportamentalmente blasé, politicamente reaça! Os males pequeno-burgueses são!
[PS.: sobretudo da jovem pequeno-burguesia brasileira]

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Museu do índio

O museu é do índio, mas o índio ainda está vivo!
O índio ainda respira, ainda pulsa.
O museu é do índio, mas as terras são do Estado.
O museu é do índio, mas as terras são dos latifundiários.
Mais bonito se o índio estivesse na fotografia, bonitinho e emplumado!
Mais bonito se o índio fosse uma criança branca, pintadinha, cantando aos índios em feriados!
Mais bonito se o índio estivesse nos livros, em um passado engarrafado.
Todo dia era dia de índio, mas o índio ainda está vivo!
Agora!
Neste instante!
Em cima da árvore!
Mas aproveitem, não vai durar muito!
O passado é do índio, mas o tempo presente é daquele antigo progresso (enferrujado).
Logo logo, quem sabe, o índio volta para o museu...

Tão risonho quanto empalhado!

PS.: os índios estão vivos, agora, em vários lugares, aqui

sábado, 14 de dezembro de 2013

Protestos contra faixas exclusivas para transporte público, ou de como sofre a classe média!

Essa moça daí da foto, fez um protesto em São Paulo contra as faixas exclusivas para ônibus, argumentando que atrapalham o trânsito dos bons cidadãos que usam carro. Ora, que culpam têm esses cidadãos de terem dinheiro, casa, carros e agregarem valor ao mundo pequeno burguês consumista e individualista brasileiro, não é mesmo?!



Mas, na verdade o que muita gente que pensa mais ou menos como ela, ou quem sabe até ela mesma (hipoteticamente), queria dizer, era algo parecido com essa reconstituição "ficcional" que faço abaixo:

Faz de conta que é a indignada cidadã protestando contra as faixas exclusivas de ônibus. Ela continua:

- "E tem mais, eu acho que temos que acabar com esse negócio de transporte público! Ora, se os nossos negrinhos, ops... digo, se os nossos empregados querem ir pro trabalho, limpar nossos banheiros, engraxar nossos sapatos, quem vão à pé, pra isso tem calçadas. Eles já conquistaram o direito de usarem sapatos, então que os usem indo pro trabalho cedo! Já não basta essas bolsas esmolas para essa gente nordestina desdentada... ops, quero dizer, pra essa gente pobre... Daqui a pouco, além de faixa exclusiva para ônibus, vão querer faixa pra essa gente defeituosa que anda pedindo na rua... ops!, quero dizer, pra essa gente com problemas de locomoção. Se continuar assim, a gente dando direitos pra essa gente vagabunda, ops, quero dizer, pra essa gente pobre, o Brasil vai acabar virando uma Cuba ou a Venezuela... Deus me livre!"

Fim da reconstituição ficcional!

O que falar de tudo isso, né minha gente? Pensei em dar gritos de revolta, mas vou concluindo com um lamentar. Como sofre essa classe média brasileira, como sofre essa gente de bem.

É de dar dó!... de dar dó!

Tive aceso ao caso na postagem do Movimento Pró-Corrupção no facebook, aqui.

Perguntas de um trabalhador que lê Belém.

(em homenagem ao Antonio Lemos)

Quem construiu a Belém belepoquiana? 
Nos livros vem o nome de Lemos.
Mas foi ele quem transportou as pedras de mármore, quem plantou uma a uma as mangueiras hoje centenárias?
Não levava sequer um calceteiro preto, índio, caboclo, pobre, da periferia, para arrumar as pedras por onde passava?
E as óperas do Theatro da Paz, quem as patrocinava?
Nos livros aparecem nomes de nobres locais.
Mas, e os pianos? Carregaram eles mesmos os pianos nos ombros?

Como diria o poeta Brecht:
“Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas"